Rayman Assunção

O Carnaval e o enfraquecimento da espiritualidade
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O Carnaval, em sua origem histórica, está ligado ao calendário cristão. Ele precede a Quaresma, tempo de penitência, jejum e recolhimento. Não é, portanto, um fenômeno estranho à tradição católica. Contudo, o que se observa hoje é uma inversão quase completa de sentido. Aquilo que deveria ser apenas um breve momento cultural antes do deserto quaresmal tornou-se, para muitos, uma celebração da desordem moral, da sensualidade exacerbada e da suspensão prática de qualquer referência a Deus. É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: o Carnaval, tal como vivido em nossos dias, contribui para o enfraquecimento da espiritualidade?
A espiritualidade católica exige vigilância, domínio próprio e consciência da dignidade do corpo e da alma. O homem não é feito para a dispersão constante, mas para a integração interior. Quando uma cultura promove excessos — bebida sem limites, erotização pública, banalização do corpo, estímulo à infidelidade e à irresponsabilidade — ela cria um ambiente pouco propício à vida de graça. A alma, já fragilizada pelas lutas cotidianas, encontra-se ainda mais vulnerável quando mergulhada em estímulos que exaltam paixões desordenadas.
Não se trata de condenar a alegria. O cristianismo não é inimigo da festa. Ao contrário, é a religião da verdadeira alegria, aquela que nasce da consciência tranquila e da comunhão com Deus. O problema não está na música, na dança ou na cultura popular em si mesmas, mas no espírito que as anima. Quando a celebração se transforma em fuga da realidade, em suspensão moral coletiva ou em culto ao prazer imediato, ela deixa de elevar o homem e passa a rebaixá-lo.
Há também um aspecto mais sutil: a anestesia espiritual. Mesmo aqueles que não participam ativamente das festividades são envolvidos por uma atmosfera cultural que normaliza o excesso e relativiza valores. A repetição anual desse padrão contribui para enfraquecer a sensibilidade moral. O pecado deixa de chocar; torna-se entretenimento. O corpo deixa de ser templo do Espírito Santo; torna-se objeto de exposição. A liberdade deixa de ser orientada pela verdade; transforma-se em licença.
Para o católico consciente, esse período deve ser ocasião de discernimento. Não basta simplesmente condenar ou isolar-se; é necessário testemunhar uma alternativa. Muitos santos viveram em épocas de decadência moral sem perder a firmeza. A resposta cristã não é o medo, mas a fortaleza. É possível atravessar esses dias com sobriedade, oferecendo sacrifícios, intensificando a oração e preparando o coração para a Quaresma.
Percebo, que o verdadeiro enfraquecimento da espiritualidade não ocorre apenas nas grandes festas públicas, mas na escolha interior de afastar Deus do centro da vida. O Carnaval torna-se problemático quando simboliza essa escolha coletiva. Contudo, pode também ser ocasião de contraste: enquanto o mundo se dispersa, o cristão pode recolher-se; enquanto muitos buscam euforia passageira, ele pode buscar a alegria permanente.
No fim, a questão não é cultural, mas espiritual. O homem sempre será chamado a decidir entre a exaltação das paixões e a elevação da alma. O Carnaval, tal como frequentemente vivido hoje, revela essa tensão. Cabe ao católico escolher, com liberdade e consciência, qual espírito deseja alimentar.
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* Rayman Assunção, ex-seminarista, escritor, designer gráfico, membro das pastorais "Magela Conecta" e "PASCOM".


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