Rutilene Garcia

Família: uma instituição de Deus
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A Bíblia nos ensina que, ao casarmos, nos tornamos “uma só carne” (Gênesis 2,24). Essa expressão, "uma só carne", significa a união eterna entre um homem e uma mulher, o que nas sociedades dos tempos bíblicos era fundamental para a vida e a sobrevivência da espécie humana, pois além dos aspectos legais e econômicos envolvidos transformava os noivos em uma única entidade espiritual e física com impacto nas relações, formas de conduta e responsabilidades sociais.
Independente da época, ontem ou hoje, a união conjugal, com base na fé que nos move, deve ser vista como um ato divino, pois ao formarmos uma família, através do Sacramento do Matrimônio, como esclarece o Diretório da Pastoral Familiar damos uma “resposta de fé a um chamado de Deus para edificar a sociedade e a igreja, a serviço da construção do Reino de Deus.”
Essa resposta para Deus, por parte de um casal cristão, em minha opinião, deve estar imbuída, ou seja, impregnada de igual propósito, mesmo quando o Sacramento do Matrimônio, por algum motivo, ainda não tenha sido efetivado.
A união de um casal com vistas à formação de uma família é tão importante que em Efésios 5,31, o Apóstolo Paulo reafirma que o homem deve deixar pai e mãe e unir-se à sua esposa, enfatizando a união profunda que deve existir entre o casal e a importância dessa relação na vida cristã, refletindo o mistério da união entre Cristo e a sua Igreja.
“Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne. Esse mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja.” (Ef. 5,31-32).
Ao dizer “SIM” a esse chamado, segundo a Familiares Consortio do Papa João Paulo II , os pais assumem a responsabilidade de serem os primeiros e principais educadores dos filhos que Deus os entregar, tornando a família formada a primeira escola de virtudes, assumem também a tarefa de ajudar os filhos a alcançarem a vocação que cada um de nós traz desde o nosso nascimento: crescer e se desenvolver de forma integral para encontrarmos a união eterna com Deus e, em decorrência desse encontro, a felicidade, afinal é para isto que somos chamados a vida por Deus: sermos felizes.
Conforme destaca o Catecismo da Igreja Católica (CIC) , o matrimônio e a família são destinados ao bem dos esposos e à procriação e educação dos filhos. A família, em Cristo, é uma comunidade de fé, de esperança e de amor e como tal, reveste-se duma importância singular na Igreja, pois entre seus membros estabelecem-se relações pessoais e responsabilidades primárias que se sobrepõem as responsabilidades sociais.
Ao se formar uma família, constitui-se um direito-dever educativo dos pais que é insubstituível, essencial, não alienável e não delegável, como bem destaca o Catecismo da Igreja Católica e reafirma o Diretório da Pastoral Familiar. Este direito-dever é muito bem definido pelo Apóstolo Paulo (1ª Timóteo 5,8), que nos alerta que se alguém não cuida dos seus parentes, especialmente daqueles que são da sua própria casa, ele nega a fé e é pior do que aquele que não acredita em Cristo.
Em resumo, Deus deseja que a família atue como uma “escola de amor”, uma comunidade de graça e de oração, escola das virtudes humanas e cristãs, lugar do primeiro anúncio da fé, onde a convivência conjunta de pais e filhos gere a oportunidade de exercermos o sacerdócio baptismal, como participantes da missão de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei.
A maior prova desse desejo Divino é que a Encarnação do Verbo se deu em uma família humana, a Sagrada Família de Nazaré. Seguindo os exemplos de Maria e de José, que com os seus “SIM” iluminam “o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história”, como nos lembra o Papa Francisco em sua Exortação Amoris Laetitia, podemos também fazer a vontade de Deus, que por sinal é o requisito que Jesus nos apresenta para também sermos considerados da Sua família, conforme Ele mesmo declara: “eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
Ressalta-se que ao fazer essa declaração, Jesus não estava renunciando à sua família segundo a carne, pois Ele mesmo na cruz continuou a cuidar do bem-estar da Sua mãe, ao passar a responsabilidade por ela (Nossa Senhora) ao discípulo a quem ele mais amava.
Diante do que sabemos sobre o plano de Deus para a família, podemos nos perguntar: como realizar essa proposta divina nos dias de hoje?
Vivemos um momento no qual a família enfrenta inúmeros desafios e forças opostas aos desígnios de Deus, mas também de oportunidades de aprendizagem e crescimento na fé. Diante disso, devemos voltar a atenção para a nossa família, cuidando do que é realmente importante, mas também olhar para a situação de outras famílias, para suas necessidades, e de alguma forma buscar contribuir para o fortalecimento das relações baseadas em valores cristãos e a ampliação do nível de consciência quanto à necessidade de apoio espiritual e material ao próximo e, principalmente, evangelizando nossos irmãos para que, consequentemente, tenhamos uma sociedade mais justa e próxima do Plano de Deus.
Para tanto, é bom termos a clareza que na raiz dos pontos negativos a serem enfrentados, segundo o Papa João Paulo II (Exortação Apostólica Familiaris Consortio), encontra-se a ideia e experiência deturpadas de liberdade, que para muitos é concebida como força de autoafirmação, ou seja, de valorização do “EU” e não como capacidade de concretizar o que Deus deseja como força motivadora da família: amor radicado na fé.
A liberdade, vista pela perspectiva da missão eclesial da família, se alimenta da Sabedoria Divina, pois envolve a “consciência moral, que torna o homem capaz de julgar e discernir os modos aptos para a sua realização segundo a verdade originária (...)” , e torna-se força para o amadurecimento contínuo da fé e de crescimento das pessoas que integram essas pequenas igrejas domésticas, de acordo com o projeto de Deus.
Esta é a missão da família! Fácil não é, mas bela e possível sim, quando o amor experimentado entre o casal, filhos e demais membros da comunidade familiar tende a se aproximar do mesmo amor que uniu Cristo a sua Igreja, que somos todos nós.
Fontes:
CNBB - documento 79, Diretório da Pastoral Familiar. Texto aprovado pela 42ª Assembleia Geral, Itaici – Indaiatuba (SP), 2004. Paulinas – SP/Brasil, 2020.
Papa João Paulo II. Exortação apostólica Familiaris Consortio: ao episcopado, ao clero e aos fiéis de toda a Igreja Católica, sobre a função da família cristã no mundo de hoje. 22 de novembro de 1981.
CIC, 2201-2205 e 2249, disponível em https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html, acessado em 10 de fev. de 2026.
Familiaris Consortio, pag 14.
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* Rutilene Garcia Cunha, servidora pública aposentada, economista e especialista em gestão pública e gerenciamento de projetos. Na paróquia sou catequista e componente da equipe de coordenação do SAAF - Serviço de Apoio e Assistência às Famílias.


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