Palavra do Pároco

Entrevista
Por Ana Caroline Bonfim e Geandre Alvarenga
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Monsenhor, ao celebrar mais um ano de vida, que significado o aniversário natalício tem para o Senhor hoje, depois de tantas experiências humanas e sacerdotais acumuladas ao longo do tempo?
Primeiro, uma alegria poder conversar com vocês e depois estar disponível não só para as perguntas, mas também para esta partilha da vida. Eu penso que, em primeiro lugar, é gratidão, sentimento de gratidão. Devemos sempre ser gratos a Deus pelo dom da vida. Em segundo lugar, dizer que neste momento é bom lembrar de todos os benefícios que Deus me concedeu e lembrar do que eu posso devolver a Deus por esses benefícios e graças, dons, dádivas que eu tenho recebido na minha vida toda, e saber que eu posso sempre dar a Deus, não como possibilidade, mas como decisão. Eu posso dar respostas positivas ao chamado, às expectativas e à própria missão que o Senhor me concedeu destes anos todos de existência.
O senhor nasceu em Juçarateua, em Colares. Que marcas da infância, da família e da vida simples do interior ainda permanecem vivas no seu coração e influenciam o seu modo de ser padre?
Do interior, lá de Jussarateua, em Colares, eu guardo ainda hoje, depois de tantos anos, todas as lembranças importantes, positivas e negativas. De modo especial, a minha vida familiar. Isso, pra mim, é muito sagrado, porque é na família que nós somos gestados como pessoas de relação, de responsabilidade. Família é a base de tudo. E depois, além da vida familiar, há vida na minha comunidade religiosa. A devoção a São Sebastião marca ainda hoje a vida de todo mundo na comunidade. Mas, a partir da festa de São Sebastião, aqui em janeiro, nós temos — tínhamos, e hoje tem menos, mas antigamente havia mais — o mês de Maria, o mês que antecedia o período que antecedia a Quaresma, pois tínhamos um período que decidia a festa do Natal e o próprio Natal. Ou seja, toda a nossa vida religiosa da comunidade girava em torno das grandes festas da Igreja, dedicadas aos santos, à Nossa Senhora, e isso também definia o ritmo da nossa vida pessoal e familiar. Essas lembranças todas eu tenho e me marcaram profundamente.
Quando o senhor olha a própria história de vida, há algum momento fora do altar que considere decisivo para a formação do homem Ronaldo Menezes?
Eu não me penso como homem fora do altar. Nunca me pensei. Nunca tive dúvida do que eu queria ser e, depois que me deu a graça o Senhor da ordem sacerdotal, eu nunca me imaginei fora deste âmbito sagrado. A minha vida toda gira em torno do altar, do serviço a Deus, na Igreja, de modo muito concreto, na comunidade paroquial. É assim que eu me vejo. Então, eu não tenho outra forma de ver a minha vida. O chamado do sacerdócio surgiu cedo.
Em algum momento da vida o Senhor teve dúvidas, medos ou resistências, e como a graça do Senhor sustentou nessas fases?
A minha decisão de ir para o seminário foi muito cedo. Mas antes eu tinha uma vida na paróquia muito intensa, não só das celebrações litúrgicas, mas também da catequese. Eu fui catequista muito cedo na minha paróquia e vivi todas as experiências pastorais nessa paróquia. Quando eu fui para o seminário, eu fui decidido a ficar no seminário, a permanecer na formação que me era proposta e até o final. Não vou dizer que foi tudo fácil. Nunca é fácil nada na vida que seja importante. Porém, ao chegar ao sacerdócio, sem nenhuma dúvida do que eu queria ser, de que a vida de padre era uma vida de exigências e que essas exigências determinariam a minha própria existência, desde então eu sempre pautei a minha vida para fazer o melhor que eu podia fazer como padre, nunca menos, sempre mais, porque eu acho que Deus precisa que nós tenhamos a consciência de nunca fazer somente o que é necessário, mas ir além do necessário, fazer o que é fundamental para que o sacerdócio de Cristo, que me foi confiado, seja não só uma experiência pessoal, mas seja de importância fundamental para a comunidade a qual devo servir.
Ao longo de mais de três décadas de ministério, o Senhor exerceu funções exigentes e de grandes responsabilidades. Como o Senhor aprendeu a equilibrar vida interior, serviço à Igreja e cuidado pessoal?
Certamente que a vida de padre não é fácil, nunca foi fácil, nunca será fácil. Porém, se Deus nos concede a missão, nos concede também a graça de cumprir bem essa missão. Os fundamentos deste itinerário de fé na vida ministerial são basicamente a obediência a Deus, o serviço alegre a Deus, não fazer nada com tristeza, dor ou abatimento, e buscar em Deus o auxílio para cumprir bem essa missão. Esses fundamentos estão muito bem definidos na própria estrutura da vida do padre, que ele deve ser, além de falar de oração, um homem de oração. Além de apenas celebrar para a comunidade, saber que o que ele celebra é a sua vida. Terceiro, o mais importante é que não haja discrepância, não haja essa separação entre o que você celebra e o que você vive. Então, quando você tem essa estrutura definida na sua vida, você descobre que tudo o que você faz, faz de forma natural. Não é algo que você se força a fazer, é algo que você faz porque é a sua vida. O padre tem que fazer com que seu ministério seja frutuoso, frutífero, não apenas para si, para ser o homem de Deus, mas para a comunidade a qual ele deve servir.
Desde 2014, à frente da Paróquia São Geraldo Magela, o Senhor construiu uma relação próxima com o povo do Conjunto do Marex. O que essa convivência diária lhe ensinou como homem e como pastor?
Eu penso que o padre deve ser pastor não ao seu jeito, não ao seu modo, mas ele deve ser pastor à imagem e semelhança do Pastor que é Jesus Cristo. E Jesus Cristo deve determinar o modo como você é pastor numa comunidade. Acolhedor, alegre, feliz. Não que não tenha problemas — todos nós, como pessoas, temos problemas —, mas, na vida ministerial, o sacerdote tem que ser pastor à semelhança do Pastor que é Jesus Cristo. E Jesus Cristo deve nos iluminar todo o ministério pastoral. E, numa comunidade como a nossa, eu penso que acolher bem, mostrar como é bonito pertencer a uma comunidade, à Igreja, como é bom nós sermos irmãos, como é bom darmos o testemunho da nossa fé de modo livre, espontâneo, como é bonito você mostrar o exemplo de uma comunidade como aquela que é o sonho de Deus, tudo isso faz parte da vida do padre. Eu penso que essas relações são equilibradas, devem ser equilibradas, na medida em que elas são saudáveis. E quem dá essa salubridade, essa coisa bonita ao modo como nós vivemos a fé, é sempre a certeza de que nós pertencemos a Jesus Cristo e nós somos discípulos, ou, como dizem em São Paulo, embaixadores dele. Eu acho que este é o segredo.
Além do sacerdote e do intelectual, quem é o Monsenhor Ronaldo no silêncio: o que lhe dá alegria simples, descanso da alma e renovação espiritual?
O que eu gosto de fazer? Ser padre, primeiramente. Eu sou alegre e feliz por ser padre. Isso me dá um prazer enorme. Só o exercício do ministério de padre, em qualquer circunstância, isso já me dá uma satisfação que não tem tamanho. Primeiramente isso. Depois, as coisas que eu faço com muito prazer. Eu gosto de ler. Além da Palavra de Deus, da vida sagrada, eu tenho que ler. Eu faço com obrigação, mas também porque é bom estudar sempre a literatura apropriada, que nos ajuda a conhecer melhor a nossa fé. Depois da Bíblia Sagrada e dos livros próprios dos temas bíblicos, eu leio ainda muito hoje livros de filosofia, que sempre foi minha paixão. E eu gosto de rever alguns temas da filosofia. Não tantos quanto eu gostaria, mas alguns temazinhos. Depois, a literatura mesmo. Há autores que eu gosto muito de ler e de reler, como, por exemplo, Dostoyevsky, Franz Kafka. Os autores russos, em geral, gosto muito. E Tolkien. Leio tudo de Tolkien. Eu leio Tolkien há muito tempo. Alguns livros de Tolkien eu leio já três vezes. Alguns livros de poema, como Eliot, T. S. Eliot, gosto muito. Então, eu tenho a minha gama de livros que não são bíblicos; é grande. Eu gosto de ler. E, além disso, hoje eu fiz música. Eu adoro ouvir música. Então, eu leio e, quando eu estou lendo, eu ouço música. Gosto dos compositores clássicos, gosto de ouvir Beethoven, Tchaikovsky, Brahms, Schubert e tantos outros que são bons. Quando você escuta música clássica, por exemplo, você entra num mundo diferente, num mundo que é... não é de fantasia, mas é um mundo possível. E, além das músicas clássicas, desses grandes compositores que eu escuto todos os dias — todos os dias, não há um dia que eu não escute música clássica —, eu escuto também muita música religiosa: gregorianos de várias escolas. Gosto de ouvir uma mística que compôs músicas belíssimas, que é a Udegarda von Bingen. Ela tem obras belíssimas, belíssimas. E eu ouço Udegarda von Bingen sempre também, quase que diariamente. Isso antes de dormir; quando eu acordo cedo, coloco sempre música, ou música clássica ou música religiosa antiga. São coisas que me dão muito prazer. O tempo que eu tenho livre, que eu posso dispor para alguma coisa, leio, escuto música.
Neste aniversário, olhando para o passado com gratidão e para o futuro com esperança, que conselho o Senhor daria às pessoas que buscam viver bem o tempo de Deus?
Eu penso que nós devemos viver a vida sempre aprendendo com o passado, sem ficar com algum olhar de tristeza pelo passado, pelo que se fez ou não se fez, mas aprender com o passado. Olhar o futuro não só com esperança, com expectativa, mas com responsabilidade. E viver o presente, aí sim, com muita responsabilidade pelo que se faz. Mas essas três coisas nos devem fazer compreender que o presente que Deus nos concede deve ser abraçado, para que não deixemos de fazer tudo o que devemos fazer, o que é importante fazer. Porque Deus espera que nós não sejamos procrastinadores, mas, se algo deve ser feito, isso deve ser feito por nós.


Ana Caroline e seu pai Geandre Alvarenga
(Entrevistadores)


* Fotos por Renata e Gabriela
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