Rayman Assunção

A Oração Vocal e a Mental: Duas Modalidades para Dialogar com Deus
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No coração da vida cristã, como um pulso constante e vital, encontra-se a oração. Ela não é um mero dever religioso ou uma prática opcional, mas a própria respiração da alma que busca Deus. É o diálogo de amor entre a criatura e seu Criador, a ponte que une o céu e a terra, a intimidade que transforma a existência. Para o fiel, a oração é o oxigênio da fé, o alimento da esperança e a chama da caridade. Sem ela, a vida espiritual murcha, perde sentido e força. Através da oração, o cristão não apenas fala a Deus, mas, sobretudo, se coloca à escuta, permitindo que a graça divina molde seu coração à imagem de Cristo. Nesse diálogo salvífico, a Tradição e os mestres espirituais discerniram diversas formas de oração, entre as quais se destacam, como duas asas que elevam a alma, a oração vocal e a oração mental. Ambas são complementares, necessárias e ordenadas à santificação integral da pessoa.
A oração vocal é a forma mais acessível, universal e concreta de dirigir-se a Deus. Consiste na expressão das petições, louvores, ações de graças e arrependimento por meio de palavras, sejam elas formuladas ou espontâneas. O próprio Cristo nos ensinou a oração vocal por excelência: o Pai-Nosso. O Catecismo da Igreja Católica recorda que a oração vocal é uma "exigência da nossa natureza humana. Somos corpo e espírito, e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. É necessário rezar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica a maior força possível" (CIC, 2702). A sua importância é imensa. Em primeiro lugar, ela comunica e une: quando recitamos juntos o Credo, os Salmos ou as liturgias, professamos uma fé comum e edificamos a comunhão eclesial. É a oração do Povo de Deus em assembleia. Em segundo lugar, ela educa e sustenta o espírito: as fórmulas consagradas, como as orações da Missa, o Terço ou a Liturgia das Horas, carregam a riqueza da fé das gerações passadas. Elas nos sustentam nos momentos de aridez, quando não temos palavras próprias, e nos ensinam a rezar corretamente, moldando nossos desejos segundo a vontade de Deus. Por fim, a oração vocal incarna a fé: ao empregar a voz, o corpo e muitas vezes ritos, ela envolve a totalidade da pessoa humana, santificando também nossa dimensão física. É uma escola de humildade, pois nos insere numa tradição maior que nós mesmos e nos impede de cair num espiritualismo desencarnado. A sua utilidade para a santificação reside precisamente nessa capacidade de disciplinar os sentidos, de unir a comunidade e de oferecer a Deus um culto racional (cf. Rm 12,1) que brota dos lábios e do coração.
Já a oração mental (ou oração interior) é um mergulho silencioso no mistério de Deus. Mais do que dizer palavras, trata-se de estar com Deus, de cultivar uma atenção amorosa à Sua presença. Envolve a meditação, a contemplação e o simples repouso no Senhor. Enquanto a oração vocal fala, a mental escuta. Os grandes doutores, como Santa Teresa de Ávila, descrevem-na como um "tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com Quem sabemos que nos ama". A sua importância é fundamental para a maturidade espiritual. Ela permite uma conhecimento mais profundo de Deus, não apenas intelectual, mas experimental e afetivo. Ao meditar sobre a Sagrada Escritura, os mistérios da fé ou os acontecimentos da vida à luz de Deus, o fiel assimila as verdades reveladas, fazendo-as vida em si mesmo. Em segundo lugar, a oração mental é o berço da intimidade: nesse silêncio, o Espírito Santo pode falar ao coração, curar feridas, iluminar decisões e inflamar o amor. É na solidão com Deus que a conversão se aprofunda e a vontade se conforma à d'Ele. Por fim, ela é fonte de fortaleza e paz interiores, pois, ao se alimentar da presença divina, a alma encontra repouso das agitações do mundo e recebe força para as batalhas espirituais e para o apostolado. A sua utilidade para a santificação é incomparável: é no crisol da oração mental que ocorre a transformação interior, a "santidade da verdade" (Ef 4,24). Ela purifica as intenções, afina a sensibilidade espiritual e nos configura progressivamente a Cristo, tornando-nos, no íntimo, mais parecidos com Ele.
A oração vocal e a mental não se opõem, mas se complementam harmonicamente na jornada de santificação. A vocal é como o rio, com seu curso definido e visível, que irriga a vida comunitária e pessoal com as águas vivas da Tradição. A mental é como a fonte silenciosa e profunda desse mesmo rio, onde a água brota pura do encontro secreto com Deus. O fiel que deseja progredir na vida espiritual não pode prescindir de nenhuma das duas. A oração vocal, com sua estrutura e constância, prepara o terreno e sustenta o hábito da busca de Deus. A oração mental, por sua vez, dá profundidade, sentido pessoal e fogo de amor a todas as fórmulas e palavras. Juntas, elas realizam o ideal paulino: "Orai sem cessar" (1ª Ts 5,17). A oração vocal ocupa os lábios e os momentos comunitários; a oração mental ocupa o coração e transforma todo o tempo em oportunidade de encontro. Assim, o cristão santifica seu dia, sua palavra e seu silêncio, caminhando na presença de Deus através do duplo movimento de falar-Lhe e escutá-Lo, até que toda a sua vida se torne, ela mesma, uma oração contínua.
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Rayman Assunção, ex-seminarista, paroquiano, escritor e designer gráfico. É membro da Pastoral da Comunicação (PASCOM).


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